sexta-feira, 12 de maio de 2017

Capas Inspiradoras...

Senhoras. Senhores...

Bom dia/tarde/noite; a depender do momento que estejas lendo.

Esperamos que gostem da encomenda desta data que se segue...

Hoje é dia de trazer aqui a capa que inspirou a série “Capas Inspiradoras” destas postagens do blog.

Hoje, este humilde espaço tem a honra, e o orgulho, de trazer à luz a capa do melhor cd de Rap, em nossa opinião; um dos primeiros discos duplos deste segmento artístico; Direto do Campo de Extermínio, do grupo Facção Central.

As produções, de sentido; possibilidades de leitura são tantas quando observamos essa capa que, hoje, estrategicamente, resolvemos nos limitar a alguns mini-comentários sobre esta obra-prima do Rap.

Sem muita conversa; vamos logo...
Ao que interessa...
Aos sentidos...


A principal idéia do título nos faz atingir concepções filosóficas. Convenhamos: uma pomba branca, morta, decaída, no chão, suja de sangue, pode significar muita coisa.

A gravidade do texto imagético não se pode passar em branco às nuvens. A pomba branca é um tradicional símbolo carregado, em diversas crenças, do sentido de paz.

Na esfera religiosa, simboliza o espírito santo. Na santíssima trindade, traz o sentido de paz, simplicidade, pureza, harmonia, esperança e felicidade.

É advertido, em escrituras sagradas: pode-se xingar, e haverás perdão, a Deus; mas não se pode xingar o espírito santo. Vejam...

Um marco de esperança para a humanidade: Noé lançou ao céu; e esperou o retorno de uma pomba, para saber se o dilúvio havia sido vencido.

Ela voltou, com um ramo de oliveira no bico; e assim a boa mensagem havia sido trazida: a Terra estava pronta para ser, e foi, repovoada.

No âmbito antropológico, a idéia da morte simbólica da paz está mais que clara, só ao visualizar a imagem, mais do que expressiva.

Mas, algo que precisa ser apontado é que há sinais flagrantes de que esse pensamento; essa visão já vinha sendo trabalhada no disco anterior; em “A Marcha Fúnebre Prossegue.”. Sim; observe conosco.

Há uma música – O Show Começa Agora – na qual é categórica e explicitamente cantado que “sua pomba branca está sangrando num barraco”.

Sem mencionar a vinheta de fechamento do mesmo álbum; onde é dito que “a paz tá morta; desfigurada no IML, sangue no chão, revolver na mão, infelizmente a marcha aqui prossegue.”.

Flagramos em outra oportunidade; em um trecho de outra canção – Discurso ou Revolver – algumas falas interessantes; do tipo: “ser exterminado como judeus em Auschwitz; mostrar pra Globo o que é viver no limite. A cruz da Atlanta queimando na sua frente; a SS agora veste, o cinza da PM”. Sintomático, não?

Ou, também muito explícito: “te dão crack; fuzil; cachaça no boteco; esse é o campo de concentração moderno. Hitler; FHC, capitão do mato, bacharéis em carnificina; mestrado em holocausto”.

Acreditamos que, diante do exposto não é preciso provar mais nada. Está mais do que claro que a idéia foi amadurecendo, amadurecendo; até que se concluiu; e desaguou num disco duplo perfeito; sólido; super comunicativo, desde sua capa, e que se estende por suas vinhetas.

Entrando na questão do imagem mesmo da capa do disco, outro pensamento que nos foi despertado foi o de que a pomba caída é o símbolo da extrapolação da violência. Será que é por isso que temos uma faixa que diz que “deus anda de blindado, cercado protegido por dez anjos armados” e, pasmem, sobre a pomba branca: “tem dois tiros no peito”?

Será?
Eu acredito que sim...

Há, também, neste disco, a possibilidade de leitura de que a periferia é, além de uma detenção sem muro, como foi anteriormente pensado; um campo de concentração, e, ainda mais grave, o titulo já diz, de extermínio. Não à toa a música abre alas chamar-se São Paulo: Auschwitz Versão Brasileira.

Segundo dizem, Eduardo operou em alta, e pessoalmente, na criação da capa deste disco, enfrentando, inclusive, contraposições dentro do próprio grupo.

Seguiu firme em sua idéia, e deu no que deu. Afinal, quando planejamento e coerência caminham de mãos dadas, não há o que temer em termos de resultados finais de nossas tarefas.

Nada; nada foi em vão. Nada; nada foi feito/escolhido sem planejamento e ou critério para este trabalho.
Nada!

E, pasmem, olha que acidente conveniente: foi descoberto por nós que a pomba branca é usada também como sacrifício por judeus pobres. Portanto, abrir o disco com a imagem de uma pomba, pode nos direcionar a idéia de que a fotografia daquela pomba é a prática de um sacrifício feito por um periférico que trazer vários depoimentos.

É o preço a se pagar por poder ter escrito algo tão grandioso.
Será que era sabido o que estava sendo feito? Será? Em O Homem Estragou Tudo há a afirmação de que “Depois da senzala a tortura é na favela. Hitler morreu, mas tô no gueto, judeu da nova era”. Que acidente incrível hein?

Hum...

Demarcada – e muito bem demarcada – a área de atuação, é hora de ir ao interior do disco; onde as vozes dos habitantes dos campos de concentração e extermínio espalhados pelo Brasil dialogam; se apresentam, e representam; como personagens principais deste cenário de ambiente hostil.

Daí ao uníssono polifônico: temos as presenças de um garoto, filho de pai alcoólatra; um menor, constantemente agredido pela mãe; o espectador da violência, sentado no balcão do bar da favela; um dependente químico (crack); um pai explorado pela família; dois garotos, presos, um em extrema riqueza, outro em extrema pobreza, polarizados socialmente; e assim por diante.

Todas as vozes, sendo vozes únicas; cada uma com seu conflito particular, mas, todas elas, sofrendo com o autoritarismo estatal brasileiro, todos habitantes do campo de extermínio moderno; tal como foram os judeus na época da Alemanha Nazista.

Daí a idéia de o ambiente ser polifônico, composto por vozes únicas; e uníssono, composto por vozes que sofrem simultaneamente no mesmo lugar, vítimas da mesma violência, social, cultural, simbólica, física e psicológica do estado; ainda que existam notáveis diferenças entre si.

Eu não vou recomendar, tenho certeza de que não preciso.
Quem leu até aqui, percebeu: somos fãs incondicionais, quase-que fundadores do FCFC (Facção Central Futebol Clube).

E este foi o texto feito para a capa que me motivou a criar a série “capas Inspiradoras”.

Esta é a minha mais deslavada menção honrosa à capa da mais bela obra-prima do rap; em minha opinião, sempre bom repetir.

Viva ao “Direto do Campo de Extermínio”, o disco belo até, e aqui nós nos repetimos, em suas vinhetas; O que os olhos vêem; Reflexões no corredor da morte. “Aqui não tem lista de Schindler com seu nome! Não existe salvação; no campo de extermínio...”.

Hoje, o grupo está muito a quem do que já foi; bem sabemos. 
Contudo, o que foi gerado em memória, bem sabemos nós que deve ser muito; muito; muito; muitíssimo respeitado, por qualquer que seja o sujeito que curta a batida da quebrada, ainda que não curta FC.

Enfim, quando tiverem vontade de falar acerca de Facção Central, podem nos convidar; que nos sentiremos honrados; e iremos gentilmente ao seu encontro.

Esteja você onde estiver, iremos até você para prosearmos à vontade, sem medo, e sem preconceito sobre esse grupo, único, não na música brasileira; no mundo.

O negócio é ter um bom papo, refletir.

Ah: faz um café, por favor...
Nós vamos adorar...

Grande abraço;
Fiquem na mais pura e plena paz;


Atenciosamente;

Emerson.

Um dia, ainda terei uma camisa com essa imagem;
A Capa-Imagem da obra-prima maior do mundo-Rap...



9 comentários:

  1. Valeu muitooo a leitura, não tenho ainda condições de voltar a ouvir.

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    1. Woopa...

      Muito feliz pelo crédito dado...
      A gente se vê, e fala, pessoalmente, sobre essa capa...
      Para mim, a melhor de todas do Rap...

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  2. Magnifico,conseguil botar pra fora toda a aquela bola de rancor que guardava no peito,mas já era de se esperar....já fazia um tempo que vc tava travando essa guerra dentro de vc e agora jogou pra fora ,e jjogou bonito. vou compartilhar la pagina oficial do FC.

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    1. Woopa irmão...
      Fico feliz que tenha gostado...
      Fala sobre essa capa era um objetivo meu já há muito tempo...
      Eu não acreditava que poderia ser capaz de fazer o que fiz...
      Muito obrigado pelo apoio...
      Não sabia que existia a página oficial não...
      Interessante saber...

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  3. Massa, irmão! Dá um caldo legal a matéria. Já podemos pensar naquele anteprojeto

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    1. WOOpa cara!

      Olha lá que eu acredito hein!
      Fic'Aí, me enchendo de esperanças...
      Grato, muito grato pelo comentário...
      Aqui vamos nós...

      Abraço...

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  4. Essa é a melhor capa de todos os tempos.
    "A pomba branca tem 2 tiros no peito."
    Nada mais real. A paz está morta!

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    1. Woopa!
      Grato pela moral; apoio; comentário feito, ok?
      Té-mais-ver...

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